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As Minhas Raízes


Numão
Vivi a minha infância e parte da adolescência numa linda aldeia junto ao rio Douro, Numão. O nosso Douro de paisagens multicolores, com pinceladas de verde, de amarelo, de vermelho, de castanho…, o Douro de uma beleza sem fim.
Cresci a correr entre as vinhas e penedos, saltando os valados, os socalcos e as fragas, a chapinhar nas águas límpidas, hoje algo poluídas, desse nosso Douro e da ribeira Teja (afluente do Douro), assim como sujar-me a comer as rubras e suculentas amoras, a subir e a descer às amendoeiras, às figueiras, às laranjeiras… e às monumentais muralhas do nosso antiquíssimo castelo.
Cresci e fiz-me mulher nesta pacata terra alto duriense.
Dela recordo, o branco da neve nos invernos rigorosos e a imensidão das amendoeiras floridas, as multicores das vinhas, a cor rubra e o sabor agro-doce das amoras, assim como os raspanetes que ouvia, da minha mãe, sempre que chegava a casa toda suja e magoada por ter subido às amoreiras. Delas recordo, também as peripécias vividas em liberdade, ora jogando à bola, ao pião ou à bilharda, ora escalando aos fraguedos ou trepando às muralhas do castelo, onde usando de uma imaginação prodigiosa e de acordo com a idade imaginei, juntamente com os amigos, aventuras fantásticas e assombrosas.

Encontrei no Youtube este vídeo, com lindíssimas imagens sobre a minha maravilhosa aldeia, que quero partilhar convosco. Parabéns e um agradecimento muito especial ao seu autor.

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Da Minha Janela Eu Vejo…

janelaDa minha janela eu vejo o manto estrelado da noite a aconchegar a minha rua. Sinto um cheiro no ar, com aromas de tília, de lavanda, de rosmaninho e de eucalipto.
Da minha janela eu vejo o luar a banhar de prata todo o horizonte e a reflectir-se, como se um espelho fosse, nas águas do Leça, que se espraia, lá ao longe, numa preguiça sazonal sem pressa de chegar ao mar.
Da minha janela eu vejo a minha rua calma e silenciosa. As pessoas recolheram-se ao aconchego do lar. Nada se ouve! O silêncio espalha-se por todo o lado, só quebrado, de quando em quando, por tímidos miaus e o pelo alegre ladrar dos cães a cumprimentarem quem passa.
Mas minha rua não é sempre assim. Quando acorda e os candeeiros adormecem, o relógio da igreja desperta parecendo dizer a quem passa “Como linda está a manhã!” Então as pessoas começam a surgir e a rua enche-se de alegria, risos e animação.

Da Minha Janela Eu Vejo…

DouroÉ manhã e o dia acordou alegre e calmo, só perturbado pelo harmonioso bailado da ramagem dos choupos e plátanos a dançarem uma valsa austríaca. É uma manhã estival e o sol gargalhando espreguiça os seus raios beijando tudo à sua volta.
Da minha janela eu vejo um rio, o chamado rio Douro. O rio Douro chama-se assim devido ao sol, que quando se reflecte nele, o rio parece banhado d’ouro. É Douro, porque transforma em ouro os campos e as culturas das suas margens, que dão suculentos e aprazíveis frutos e o famosíssimo Vinho do Porto, o ex-líbris de Portugal no Mundo.
Que sublime postal é o Douro com os seus socalcos pintados de vermelho, amarelo, laranja e castanho, quando o Outono nos visita e as vinhas começam a despir-se dos tons verdes que as aconchegaram, enquanto os homens gota a gota esgotaram o seu suor, para que as conseguissem lavrar, cavar, enxofrar, sulfatar e por fim colher as sumarentas uvas que darão o suco dos deuses.
Sinto na minha boca o estalar agradável do Dedo de Dama, da Cardinal e da Mourisca, o travo suave da Malvasia e doce acentuado do Moscatel, uvas de mesa que se penduram para que cheguem até ao Natal.
Visualizo as mulheres curvadas a cortarem os cachos maduros e a colocarem-nos com cuidados nos cestos, para depois serem transportados pelos homens para os lagares. Ouço os cantares das mulheres “Fui ao Douro às vindimas, não achei que vindimar, vindimaram-me as costelas, olha o que lá fui ganhar!” e as risadas das crianças que, também, colaboravam nesta árdua labuta. Vejo o fervilhar alegre dos vindimadores, sinto o aroma das uvas maduras e ouço o zumbido das abelhas a esvoaçarem constantemente sobre os cabanos.
Da minha janela eu vejo um barco a deslizar suavemente na estrada aquática que é o Douro, desde Barca de Alva até à Foz, onde o rio é devorado pela bocarra esfomeada do oceano.
Mas nem sempre o Douro é calmo e pacífico. Nos dias chuvosos do Outono e do Inverno o Douro grita a sua tristeza e as suas águas agitadas batem nas margens, inundam culturas e casarios e arrastam tudo o que lhe faz frente. Ele manifesta a sua rebeldia, vociferando, barafustando e estrebuchando para chamar a tenção pelos maus-tratos que tem sofrido.
O rio Douro nem sempre é d’ouro, pois as suas águas puras, límpidas e cristalinas por vezes ficam doentes, sujas e poluídas. O Homem, que se julga dono e senhor do planeta, tudo tem feito para manchar a paisagem verdejante, para secar a cascata cintilante, para sujar o jardim deslumbrante e alimentar a guerra, esquecendo a paz que devia haver na minha Terra. Uma Terra onde o arco-íris brilhe e vá beber a água ao rio d’ouro e irradie as suas sete cores sobre o céu claro e azul.