História & Estórias

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ACONTECEU… O REGICÍDIO

A 1 de Fevereiro de 1908, deu-se o Regicídio, assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe.

A 1 de Fevereiro de 1908, deu-se o Regicídio, assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe.

No Regicídio foi assassinado

Carlos I, “O Martirizado

Foi pintor e amante do mar

“Diplomata” pelo país prestigiar!

D. Carlos e o príncipe Luís Filipe

Homem culto e viajado, muito ligado à natureza campestre e marítima. Adorava caçar, caminhar e admirar os campos alentejanos, onde se deliciava com o chilrear das aves da região que retratou em muitas das suas pinturas. Outra das suas paixões, era o mar e para isso, adquiriu o navio Amélia, que mandou apetrechar com instrumentos de pesquisa, que lhe permitiram explorar o fundo do mar do Açores e dar a conhecer ao mundo novas espécies da fauna e da flora dos nossos mares.

Homem culto e viajado, muito ligado à natureza campestre e marítima. Adorava caçar, caminhar e admirar os campos alentejanos, onde se deliciava com o chilrear das aves da região que retratou em muitas das suas pinturas. Outra das suas paixões, era o mar e para isso, adquiriu o navio Amélia, que mandou apetrechar com instrumentos de pesquisa, que lhe permitiram explorar o fundo do mar do Açores e dar a conhecer ao mundo novas espécies da fauna e da flora dos nossos mares.

O seu reinado (1889-1908) foi caracterizado por constantes crises políticas e sequente insatisfação popular. Houve vários acontecimentos que vaticinavam o fim da monarquia, como foi o caso como do Ultimato Inglês, de manifestações e tentativas de revolta para acabar com a monarquia.

 Mal recebeu a coroa rebentou o caso do  Ultimato Inglês, em que a Inglaterra exige que Portugal se retire dos territórios entre Angola e Moçambique, caso isto não acontece declara guerra a Portugal. O rei e o governo aceitam as exigências inglesas, atitude rotulada, pelos republicanos, de cobardia e vai ser usada como exemplo da fraqueza da coroa.

Perante tanta contestação D. Carlos entrega a governação a João Franco que instaurou uma ditadura e, com mão de ferro, procurou controlar os republicanos, os anarquistas e outras correntes políticas que se tinham infiltrado na sociedade portuguesa e faziam frente ao rei.

Morreu assassinado   na tarde de 1 de fevereiro de 1908. O príncipe herdeiro, Luís Filipe, também não morreu no atentado.

Sucedeu-lhe, com apenas 18 anos, o seu filho mais novo, D. Manuel II que viria a ser o último rei de Portugal. Reinou de 01 de fevereiro de 1908 a 05 de outubro de 1910.

Manuel II foi o rei derradeiro

Afamado por “Patriota” e “Desventurado”

O seu amor à Pátria foi verdadeiro

Quando na Inglaterra esteve exilado.

Fernand@maro

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DA MINHA JANELA VEJO A MINHA RUA

Da minha janela vejo a minha rua. Chamo-me Íris e, tal como disse, da minha janela vejo a minha rua.

Sei que o meu nome advém da mitologia grega e significa “mensageira pela palavra” ou “arco-íris”. Íris era uma deusa mensageira dos outros deuses e revelava-se como um arco-íris colorido no céu, personificando a união entre o Céu e a Terra.

 Sem dúvida que o meu nome se adequa muito bem à minha pessoa, pois gosto muito de falar, de trocar ideias, mas mais de que tudo de escutar e de observar.

A minha rua chama-se a Rua dos Sorrisos e aqui toda a gente sorri. Muitas meninas da minha idade, quando acordam, vão ver televisão mas eu não, eu vou para a minha janela. Olho através da vidraça a apreciar todo o alvoroço que ocorre na minha rua.

            Acordo por volta das 8h com um meigo sorriso na boca. Vou para a casa de banho faço a minha higiene, lavo a minha suave cara, penteio os meus curtos cabelos e escovo os meus brancos dentes e vou para a janela.

Lá fora ainda não há grande algazarra. Sabem, a minha rua à tarde parece um circo, mas de manhã é uma rua normal. Tudo está calmo! Não se ouvem nem risos, nem carros, nem pessoas. Estão todos a dormir. De repente, a rua começa a acordar. Os candeeiros, que passaram toda a noite acordados, começam a “ desligar as luzes”, o relógio na torre da igreja começa a acordar toda a gente cantando e agradecendo a beleza da manhã.

As pessoas começam a surgir. Primeiro é a padeira que deixa o pão branco e fofo, que eu tanto gosto, em sacos pendurados nos ferrolhos das portas. Sempre que passa pela minha janela pergunta se eu não devia estar na escola mas eu, todos os dias respondo a mesma coisa:

– Senhora padeira, não há escola, estou de férias!

 Ela é muito esquecida! Mas não o devia ser… É baixinha e tem uma grande cabeça. Tem uma cara rosada e uns lindos olhos negros, mas o que mete graça é a “regueifa” a que ela chama nariz! E não é das pequenas!

Depois vem o carteiro. Ele é alto, magro e esverdeado. Mas eu gosto dele, pois traz a carta da reforma da minha avó! Pressinto que está a chegar pelo ladrar da minha cadela. Laica, é a minha cadela de raça Cocker Spaniel. Ela odeia a mota do Sr. Carteiro. Será que o barulho que ela faz perturba os seus sensíveis tímpanos? Eu sei que a audição dos cães é extremamente desenvolvida. Eles são capazes, de localizar com exatidão a direção da origem do som. Conseguem ouvir o mesmo som a uma distância quatro vezes maior do que um humano é capaz de ouvir.

De seguida chega a minha avó. Os meus pais saem muito cedo e eu fico sozinha. Mas eu não tenho medo, a Laica protege-me!

A minha avó chama-se Judite, mas eu trato-a por vovó Juju! Tomo o pequeno-almoço, vou ver um pouco de televisão e ajudo a minha avó a fazer o almoço. Hoje o almoço foi um regalo para os meus berlindes castanhos ou seja, para os meus olhos que são pequenos e brilhantes. Comi esparguete com almôndegas.

Depois voltei para a janela. Vi as meninas mais velhas que vão passear até ao parque que há junto ao rio, onde, por vezes, eu vou com a avó Juju no final da tarde. Elas dão-me um sorriso e eu retribuo-o com outro.

Depois vem o senhor Patolas. O nome assenta-lhe que nem uma luva. Tem uns pés de pato! Ele está a passear o Rio, aquele cachorrinho de olhos profundos e cabeça grande. Rio é um cão de raça Chow Chow, que a combina da nobreza de um leão, com a fofura de um panda e o encanto de um urso. Tem, ainda, a graça e a independência de um gato e a lealdade e devoção de um cão. 

Finalmente, chega a hora de ponta. A rua parece um circo de pessoas de raças diferentes! Ora passam, muito apressadas, as senhoras da convenção Maria, onde todas elas se chamam Maria, com os seus longos vestidos estilo séc. XIX, ora passa o presidente Amável, que é todo amabilidades, a dar beijinhos e abraços a toda a gente para ver se ganha as eleições.

Passam pessoas para o trabalho, passam pessoas para o autocarro, passam pessoas para o comboio, passam pessoas para passear e passam pessoas para os cafés. Passam pessoas para todo o lado, mas só eu, uma menina de 7 anos, com pouco de altura e muito de reguila, posso apreciar a beleza, não da pressa, mas sim das pessoas que todos os dias passam sem apreciarem a mais bela rua do mundo, que eu tenho a sorte de a admirar da minha janela – a Rua dos Sorrisos.

Fernand@maro

MEMÓRIAS DE INFÂNCIA – CHEIROS E SABORES DE NATAL

Porque há memórias, receitas, cheiros e sabores que aquecem a alma, que nos alimentam o espírito, hoje, 21 de dezembro, recordo com saudade os aromas e os sabores aconchegantes dos natais da minha meninice. Estes eram únicos, bem como toda a euforia e entusiasmo que irradiava desta quadra festiva!

Tudo começava com a recolha de pequeno e finos toros de madeira que iriam, depois de acesos, fazer ferver o azeite, numa sertã/frigideira de três pernas, que fritariam as tão deliciosas de bolas de natal, também conhecidas por filhós.

Eu segurava no alguidar, e com a força que parecia não ter, a minha mãe com a massa até ao cotovelo amassava e voltava a amassar, batia e socava a massa uma e outra vez. Quando esta se soltava bem das mãos estava pronta para levedar. Depois de polvilhada com farinha, era coberta com um pano branco e colocada junto da lareira para que crescesse bem e rapidamente.

Sentada num pequeno banco de madeira, com um pano branco nos joelhos, a minha mãe fazia bolinhas de massa que, depois de molhadas em azeite numa pequena tigela junto à lareira, tendia sobre o joelho fazendo a bola/a filhó e colocava-a no azeite. Eu gostava delas finas, quase transparentes! Eu, ao seu lado, com um garfo grande, virava, com cuidado e carinho, cada filhó. Depois de bem douradas e bem escorridas eram polvilhadas com açúcar e canela, guardas num tabuleiro ou num cesto e cobertas com uma toalha branca.

Adorava-as e adoro-as quentinhas, acabadas de fazer! Estas eram comidas não só na noite de consoada, no dia de Natal, mas também ao longo da semana até ao Ano Novo.

Para que a tradição natalícia fosse cumprida na noite de consoada comia-se o bacalhau cozido, o arroz de polvo e as migas /açorda de bacalhau e couve penca. Na sobremesa não podia faltar as filhós, o arroz doce e as rabanadas e salpicadas com canela.

Ainda, na noite de 24 de dezembro, enquanto alguns jovens andavam de porta em porta a cantar “As Boas Festas”, outros cavaqueavam e aqueciam-se junto do gigantesco cepo / madeiro que ardia no largo da igreja. Este era ateado no entardecer da véspera de Natal e ardia até ao Dia dos Reis. Nos dias anteriores os rapazes da aldeia iam roubar grandes troncos e raízes de árvores que depositavam no adro da igreja. Hoje pessoas de todas as idades continuam a juntar-se e a conviver em redor do cepo / da fogueira, aproveitando o lume do braseiro para assar e saborear frangos e febras de porco.

Ao deitar e antes da meia-noite, colocava o meu sapato na chaminé da lareira, na esperança que o Menino Jesus lá deixasse uma prendinha. Ele nunca deu com a minha casa, a prenda nunca apareceu mas, no dia de Natal, eu podia exibir-me e com vaidade com uma roupa nova.

Não posso esquecer e deixar de referir o presépio e a Árvore de Natal, que eram construídos juntos para que o pinheiro protegesse a gruta do Menino Jesus. Era também uma grande azáfama! Após cortarmos o pinheiro, arranjarmos o musgo, fazíamos a Árvore de Natal, enfeitando-a com bolinhas e fitas brilhantes. Por baixo montávamos o presépio com montes e vales, rebanhos e pastores e uma gruta que albergava o Menino Jesus, Nossa Senhora, S. José e o burrinho e vaquinha. Claro que não podia faltar a Estrela de Belém e os três Reis Magos!

Sou fã e colecionadora de presépios, tenho muitos (cerca de oitenta) e já fiz muitos, mas nunca consegui fazer um tão bonito como aqueles que recordo da minha infância!

Fernand@maro

QUE BOM É ESTAR DE FÉRIAS!!!

Que bom é estar de férias!!!

Depois de um ano cansativo, cheios de altos e baixos chegou, agora, a hora de esquecerIMG_20170817_125555 os problemas e relaxar. Chegou o momento de abrir a porta e possibilitar a entrada de energias positivas que alaguem cada espaço de felicidade e harmonia, que me tragam a liberdade de descobrir o amanhecer e absorver o entardecer.

Férias rimam com tranquilidade e alegria, com o prazer de saber que o tempo é meu e só meu e posso fazer o que, verdadeiramente, tenho vontade de fazer.IMG_20170813_134525

Férias são como uma arca misteriosa, de onde posso extrair experiências intensas e extraordinárias que me permitam sentir a alegria da vida e viver de coração aberto.

Que bom é o descanso!

Que sensação agradável poder despejar-me das correrias, dos atrasos, dos toques de entrada, do vaivém diário e rotineiro…

Que salutar é poder mandriar no meu sofá ou na praia, sentindo a água do mar acariciar os meus pés, sentindo a brisa marinha roçar o meu rosto!

Que tonificante é poder andar sem relógio, deixar-me levar pelo tempo!

Como é benéfico não ter compromissos e poder caminhar num parque ouvindo a melodia dos pássaros e o bailado suave da ramagem das árvores ou apreciar e escutar a contradança das ondas do mar!

Que prazer é poder ler os meus autores preferidos, por vezes esquecidos e poder decidir o que fazer ou não fazer, como é o caso de escrever, o que tenho negligenciado neste espaço!

Que bom é estar de férias!!!

Fernand@maroferias-1514986808

 

SOB O MEU OLHAR

É o fim de tarde de um dia estival. Passo a passo vou percorrendo a encosta íngreme. Ao olhar para o cume da elevação posso admirar as robustas muralhas do majestoso castelo. Há um contraste inteligente e bem pensado, entre o imponente e o austero, o forte e o aprazível, mas também entre o severo e o risonho, convidando o visitante a percorrê-lo e a andar descontraído junto de tanta grandeza. Observa-se tudo isto num simples e completo olhar de relance e gosta-se imediatamente dele, é bonito, é agradável e oferece mistérios.

Chego, entro pela porta principal e acho-me pequenina perante tamanha grandiosidade. Sinto sobre mim o olhar amável das ilustres, mas também humildes torres que parecem dizer “Sê bem-vinda! Entra, descansa e relaxa admirando esta magnífica paisagem!”. Olho em volta e observo as ruínas da igreja de Santa Maria do Castelo, os muitos vestígios das habitações que por ali houve, as amêndoas sorridentes que pendem das amendoeiras, bem como o gigante colar de muralhas e ameias que circunda este espaço.

Julgo regressar à infância e sinto um enorme impulso de galgar as extensas muralhas. Dirijo-me para elas, olho para baixo. Vejo Numão, postada em posição de veneração e respeito, mas também orgulhosa da sua história, riqueza e beleza. Vejo o serpentear das ruas ladeadas de algum casario granítico alegrado pela cor dos telhados e pelo betão colorido da maioria das habitações. Numão é uma terra cheia de cor a brilhar ao sol. Vejo, ainda, a capela da S. Eufémia, a torre sineira da igreja e a torre da casa do Dr. João Gouveia, homem ilustre e benemérito da aldeia.

Mais ao longe avisto a albufeira da ribeira Teja e a paisagem verdejante da Sequeira com as suas casas brancas, um postal ilustrado de uma tela encantada. Caminho ao longo das muralhas. Desço-as e volto a subi-las. Extasio-me com o que vejo, um cenário hollywoodesco de cortar a respiração. O meu olhar abarca um ambiente aprazível e relaxante, com montes tocarem o céu e vales profundos banhados pelo rio de águas d’ouro, o sublime Douro. A natureza é bela e envolvente, alinhando composições harmoniosas, equivalentes a verdadeiras obras de arte.

Dizem que podem ser avistados o Castelo de Ansiães, Castelo Melhor e Castelo Rodrigo, mas eu nunca os vislumbrei. E tu?

Fernand@maro

UM SONHO BELO! – CONTO DO VERDE E DO AZUL

“Era uma vez ”, é como começam a maioria das estórias mas, a minha não começa assim, não! A minha estória é muito diferente!

Isto é no início de tudo, antes de tudo que se possa imaginar. Antes dos dragões e dos dinossauros, antes dos vulcões e até mesmo da terra. O universo era um espaço para descobrir e, os planetas eram porções de massa envolvidas em neblina, mistérios e receios.

Vou contar-vos a estória de dois planetas maravilhosos e, ao mesmo tempo muito diferentes. Esta é a história de Neptuza e Septuza.

dde5f03bafc58df6c1554ccc850544ebNeptuza era o planeta da água. Nele habitavam, não só as mais lendárias e temidas criaturas, como também as falaciosas sereias e tritões e ainda os animais e as plantas aquáticas que hoje partilham os nossos mares e nossos rios. Lá, não se vivenciava a adversidade e os seus habitantes viviam com grande satisfação. O azul de Neptuza era tal e qual a do céu e por vezes não se sabia onde começava um e acabava outro. As algas verdes tinham um movimento baloiçante que pareciam dançar à luz dos corais multicolores. Havia muitos melodiosos e agradáveis sons, mas nenhum ruído era tão agradável como aquele que muitas vezes irrompia o silêncio e o sossego daquelas paragens, o maravilhoso riso das crianças que, ali e acolá, se divertiam com os seus jogos de crianças. Como em qualquer planeta as crianças usavam sempre a imaginação para criarem lindos e divertidos jogos.

Outro planeta com tal maravilha era Septuza que era o planeta do elemento terra. Erac6c89bbb22e96fa699d4913b23ef402c aqui que se podiam achar criaturas tão maravilhosas, ultra mágicas e super fantásticas que tudo faziam para proteger e aureolizar Septuza. Em cada bela flor poder-se-ia encontrar uma bela fada-flor do tamanho de borboletas com asas que guardavam todas as cores do arco-íris e suas primas, as fadas boas que tratavam de todas as criaturas com muito amor e respeito. Nas árvores, podíamos encontrar sábios duendes que eram como livros fechados à espera de serem lidos. Existiam mais criaturas e também animais mas, aquelas cujo nome era temido eram as fadas más. Tinham sido mandadas prender nas quentes celas do núcleo onde as suas maldades seriam travadas. Septuza era como uma gigantesca esmeralda verde e brilhante pintalgada de flores de todas as cores. Com o vento, as árvores pareciam bailar ao ritmo das valsas que as fadas e todos os seres encantadores tocavam e dançavam. As crianças, corriam de um lado para o outro, livres e leves como passarinhos, ora a esconder-se nos colos das fadas, ora nos troncos ocos das árvores da floresta clara que, recebia do sol os seus raios como calorosos abraços.

Conto-vos isto como já contei a outros mais que, me acharam mentirosa ou até mesmo maluca, mas não me importo! Penso que não se devem guardar sonhos tão belos como este só para nós!

                                                                                                  Fernand@maro

A VIDA A BORDO DAS NAUS

nau-alimentos” (…) Cada navio era abastecido antes de largar para a índia com os alimentos considerados necessários para a longa viagem; o Armazém da Guiné e índia fornecia ao pessoal da navegação um conjunto de géneros alimentícios (…) as contingências das viagens, o mau acondicionamento dos produtos, as grandes variações climáticas, e, mormente, a enorme falta de higiene a bordo contribuíam para a sua rápida deterioração

Cada navio era abastecido, antes de largar para a Índia, com alimentos necessários para alguns meses – água, vinho, biscoitos (pão de farinha de trigo cozido duas vezes), vinagre, azeite, carne salgada, peixe seco e salgado, feijão, grão-de-bico, cebolas, alhos, figos, amêndoas, uvas passas, queijos, galinhas, coelhos, cabras, etc. Tal como acontecia com os outros alimentos, a água sofria os maus efeitos do clima e das más condições do vasilhame em que se guardava. Para bebê-la era, por vezes, necessário fechar os olhos e tapar o nariz.

Os alimentos sólidos eram entregues crus aos tripulantes, mensalmente, devendo ser cozinhados pelos próprios no fogão de bordo. Os fidalgos e os oficiais tinham os seus próprios cozinheiros.

Entre as doenças mais vulgares contam-se o mal das gengivas ou escorbuto, mais tarde conhecido pelo nome de mal de Luanda e as doenças pulmonares, que começavam a atuar quando se atingiam as zonas mais frias do Sul.”

nauFonte: F.C. Domingues e J. Guerreiro, “A vida a bordo na Carreira da Índia”.

“ (…) Não obstante os graves problemas de higiene causados a bordo, eram também embarcados no Reino e nos possíveis pontos de reabastecimento animais vivos (suínos, ovinos e caprinos) e aves de capoeira (galos, galinhas e frangos). E sempre que era possível acostar, fazia-se a aguada e tentava-se o refresco, quer caçando e resgatando animais, quer colhendo ou adquirindo frutas e legumes frescos. E aproveitavam-se geralmente estas paragens para pescar. (…) Importante era também a provisão da lenha e carvão para a confeção dos alimentos e a proteção contra o frio.

Vejamos agora as quantidades dos principais mantimentos. Um documento datável dos princípios do século XVI dá para a tripulação de 31 homens de uma caravela, para cada mês, a seguinte relação (13):

  • Biscoito — 707 quilosmantimentos
  • Carne — 331»
  • Vinho — 1460 litros
  • Vinagre — 62»
  • Azeite — 31»
  • Pescadas — 77 unidades

Temos, pois, como ração diária para cada homem:

  • Biscoito — 760 gramas
  • Carne — 356»
  • Vinho — 1,5 litros
  • Vinagre — 0,6»
  • Azeite — 0,3»
  • Pescada — uma posta de quase 0,1 de cada peixe.

A distribuição do biscoito, da água e do vinho era diária, mas a dos restantes géneros podia ser semanal ou mensal. E não havia cozinheiro nem caldeira comum. Cada qual cozinhava para si. (…) Além dos alimentos da regra a cargo do despenseiro, quem podia levava provisões ou dinheiro para as comprar a bordo, onde chegavam a atingir preços exorbitantes. (…)

Perante as difíceis condições de vida a bordo, motivadas, nomeadamente, por insuficiência ou deficiência alimentar, por falta de higiene, pela forte concentração de gente num espaço limitado, por agressões climáticas e pelo próprio balancear dos navios, (…) corriam riscos acrescidos de saúde e de vida. As doenças mais comuns a bordo eram as náuseas, as enxaquecas, o escorbuto, a peste, as doenças intestinais e pulmonares.

A terapêutica adotada (…) assentava nas tradicionais sangrias e purgas conjugadas com uma alimentação mais adequada e na aplicação (…) de variadíssimas drogas e mezinhas.

  • Água de borragem — para cólicas
  • Água de almeirões — laxativo
  • Água de língua de boi — anti peçonhento
  • Água de funcho — digestivo e carminativo
  • Água de endívia — hepático
  • Água de serralha — adstringente e antiflogístico
  • Água de alcoela — desintoxicante
  • Unguentos: Diacimino — para resfriamentos e carminativo

Fonte: Silva, José Manuel Azevedo, ” Os navios que o descobriram o mundo e a vida a bordo “.

 

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