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AH, QUE SAUDADES!

Ah, que saudade

Ah, esta contraproducente tristeza que chega de mansinho, sem avisar e sem hora marcada! Entra sem ser convidada, instala-se e teima em ficar.

Num piscar de olhos, sou tocada por uma melancolia repleta de lembranças, de alegrias, mas também de lágrimas, de silêncios, mas também de sons, de sabores e de aromas. Sinto o coração apertado e sinto-me envolvida pela poeira do tempo. Sou abraçada pelos raios do passado, o presente desvanece-se e sou projetada no tempo e no espaço.

Por vezes tenho saudade das pessoas queridas que já partiram. Outras vezes tenho vontade de recuar no tempo para determinado momento, ser transportada para um lugar ou para uma época.

Ah, que saudades do colo da minha mãe! Ah, que saudades dos ralhetes do meu pai!

Tenho saudades de uma alegre cavaqueira à volta da fogueira, do calor fraterno nas noites de inverno!

Sinto falta do amigo que partiu, saudade das suas risadas, da delicadeza das suas palavras, das suas brincadeiras, saudade da amizade que ficará na lembrança.

Ah, que saudades…

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NO MEU OLHAR

Está um calor abrasador. O céu está limpo e o sol brilha com enorme intensidade. A serenidade e a quietude da paisagem são quebradas, aqui e acolá pelo murmúrio da água que corre, a poucos metros, e pela orquestra da natureza que nos brinda com serenatas de paixão.

Percorro os poucos metros do estreito trilho que me faltam para atingir o objetivo. Chegar ao rio de águas frescas e cristalinas. Um espelho de água onde se reflete o azul radioso do céu e o verde intenso do arvoredo.

Instalo-me nas margens do rio, debaixo de um verdejante e frondoso salgueiro. Na sombra, o sol continua a queimar. Não tanto, mas continua, pelo que vou refrescar-me no rio. Nado, mergulho, salto e brinco com os peixes. Volto a saltar, nado no ar, brinco e flutuo na água e na luz, até o sol me tocar e me encantar.

Vou espraiar-me ao sol para secar mais depressa. Tenho a visão de uma flecha azul na superfície da água. Observo, com mais atenção e, apercebo-me que o  voo, rasante e direto, é de um guarda-rios, também conhecido por martinho-pescador, passa-rios, pica-peixe, entre outras designações. Reconheço-o pelo azul do dorso e das asas e pelo peito e ventre cor-de-laranja. A colorida, graciosa e ativa ave voa para o topo de um freixo e, ao mesmo tempo que saltita de ramo em ramo, depenica algo que trouxe das águas.

Lá, bem no alto, no céu azul, as nuvens espreguiçam-se e bocejam de mansinho. Sinto-me enternecer. Estou tranquila, leve e serena. Lembro-me, então do poema Alberto Caeiro:

O Meu Olhar Azul como o Céu

“O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta…
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo…
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol…
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)”

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXIII”

Estou com sono, vou dormir um pouco. Ouço ainda o concerto que o passarinho e os seus amiguinhos, acabados de chegar, me dão. Não consigo dormir. Não consigo parar de pensar no rio como um caminho infinito com os seus tons azulados e esverdeados, que me poderá levar numa viagem mágica, a cenários deslumbrantes e paradisíacos. Lugares com histórias e lendas de encantar envoltos em misticismo, lugares que nos renovam o espírito e nos inspiram a viver a vida com mais intensidade.

Caminho e aprecio a paisagem. A planície está magnífica. Vejo verde, verde e mais verde. Este verde que eu vejo está pincelado com as cores do arco-íris e pintalgado de flores encantadas. O seu aroma é tão divino que igual só por magia. Há árvores e mais árvores. Há uma que é diferente. Parece morta. Passo a mão pelo seu tronco. É grosso, rugoso, escuro e seco.

1455135_381490158653253_270778895_nSorrateiramente começam a surgir animais que também o almejam. Aparecem cágados, sapos, rãs, lontras, coelhos, lebres, borboletas, abelhas… Tudo começa a ficar com tons dourado, amarelo, laranja e vermelho. Cá está ele, o lusco-fusco. É lindo! A árvore parece renascer e dizer obrigado a todos nós por estarmos ali com ela.

Sabes, árvore? Eu invejo-te! Sim, tenho inveja de ti! Muitos homens anseiam ouro, prata, dinheiro, mas não sabem que tu tens algo mais valioso que isso. Exato, tu tens o rio e a paisagem, os aromas e as melodias, o alvorecer e o lusco-fusco e coração para sentir isto tudo

Fernand@maro

 

As Minhas Raízes


Numão
Vivi a minha infância e parte da adolescência numa linda aldeia junto ao rio Douro, Numão. O nosso Douro de paisagens multicolores, com pinceladas de verde, de amarelo, de vermelho, de castanho…, o Douro de uma beleza sem fim.
Cresci a correr entre as vinhas e penedos, saltando os valados, os socalcos e as fragas, a chapinhar nas águas límpidas, hoje algo poluídas, desse nosso Douro e da ribeira Teja (afluente do Douro), assim como sujar-me a comer as rubras e suculentas amoras, a subir e a descer às amendoeiras, às figueiras, às laranjeiras… e às monumentais muralhas do nosso antiquíssimo castelo.
Cresci e fiz-me mulher nesta pacata terra alto duriense.
Dela recordo, o branco da neve nos invernos rigorosos e a imensidão das amendoeiras floridas, as multicores das vinhas, a cor rubra e o sabor agro-doce das amoras, assim como os raspanetes que ouvia, da minha mãe, sempre que chegava a casa toda suja e magoada por ter subido às amoreiras. Delas recordo, também as peripécias vividas em liberdade, ora jogando à bola, ao pião ou à bilharda, ora escalando aos fraguedos ou trepando às muralhas do castelo, onde usando de uma imaginação prodigiosa e de acordo com a idade imaginei, juntamente com os amigos, aventuras fantásticas e assombrosas.

Encontrei no Youtube este vídeo, com lindíssimas imagens sobre a minha maravilhosa aldeia, que quero partilhar convosco. Parabéns e um agradecimento muito especial ao seu autor.