História & Estórias

Archive for Abril, 2013

SÊ TU!

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,603162_412905125453070_414824047-n

Sê um arbusto no vale mas sê

O melhor arbusto à margem do regato.

Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.

Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva

E dá alegria a algum caminho.

 

Se não puderes ser uma estrada,

Sê apenas uma senda,

Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.

Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso…

Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda

AS CORES DA LIBERDADE

QUEM A TEM…

Não hei-de morrer sem saberave823232

Qual a cor da liberdade.

 

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

 

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena, Poesia II

CANTIGA DE ABRIL

Às Forças Armadas e ao povo de Portugal

«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»

Jorge de Sena

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.Cartaz 25 Abril

Quase, quase cinquenta anos

reinaram neste país,

a conta de tantos danos,

de tantos crimes e enganos

chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver

o dia do despertar!

Tantos sem poder saber

com que letras escrever

com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Essa paz do cemitério

toda prisão ou censura,

e o poder feito galdério,

sem limite e sem cautério,

todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,

esses pobres sem futuro,

essa emigração medonha,

e a tristeza uma peçonha

envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar

gastando as armas e a gente,

esse morrer e matar

sem sinal de se acabar

por política demente.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo

o nome de Portugal,

essa amargura sem fundo

só miséria sem segundo,

só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos

durou esta eternidade,

numa sombra de gusanos

e em negócios de ciganos,

entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,

sai o povo logo atrás:

estala enfim altiva e nua,

com força que não recua,

a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?

É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, 1979

Tão ATUAL!!! É preciso agir…

“Para que o mal triunfe basta que os homens bons nada façam.” –  Edmund Burke

Há dias, no programa da RTP1 “5 Para a Meia Noite“, apresentado por Nuno Markl, vi e ouvi Fernando Tordo cantar uma das canções que mais o celebrizou “Tourada“. Centrei a minha atenção na letra, onde Ary dos Santos faz uma crítica mordaz à sociedade portuguesa da época e à política do Estado Novo e dei-me a pensar como esta canção está tão atual. Carregada de metáforas críticas ao regime do Estado Novo e à situação social e económica do Portugal de então, conjeturei-me a fazer o paralelismo com o tempo presente e, sem dúvida nenhuma, a “Tourada” está atualíssima, só que o touro é outro.

Deixo-vos, aqui a letra e o vídeo e vejam como tenho razão.mafaldaesperando02

Clica – Tourada

Música: Fernando Tordo
Letra: Ary dos Santos

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.

Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo…

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente
que acabaram asa canções.