História & Estórias

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O PROBLEMA DE TENTAR AGRADAR A TODOS

O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar.

Fernando Pessoa

O HOMEM, SEU FILHO E O BURRO

Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.
– O que você tem na cabeça para levar um burro estrada afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? – disse um homem que passou por eles.
Ouvindo aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram seu caminho
– Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu pobre pai, um velho andar a pé enquanto vai montado! – disse outro homem com quem cruzaram.
O homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. Passaram duas mulheres e uma disse para a outra:
– Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho a pé, coitado…
Ouvindo aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. O primeiro viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:
– Esse burro é seu?
O homem disse que sim. O outro continuou:
– Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho. Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de fazer com que ele carregasse duas pessoas.
Na mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau, e lá se foram pai e filho aos tropeções carregando o animal para o mercado. Quando chegaram, todo mundo riu tanto que o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo braço e voltou para casa.
Moral: Quem quer agradar todo mundo no fim não agrada ninguém.

 

Fábulas de Esopo

 

NO MEU OLHAR

Está um calor abrasador. O céu está limpo e o sol brilha com enorme intensidade. A serenidade e a quietude da paisagem são quebradas, aqui e acolá pelo murmúrio da água que corre, a poucos metros, e pela orquestra da natureza que nos brinda com serenatas de paixão.

Percorro os poucos metros do estreito trilho que me faltam para atingir o objetivo. Chegar ao rio de águas frescas e cristalinas. Um espelho de água onde se reflete o azul radioso do céu e o verde intenso do arvoredo.

Instalo-me nas margens do rio, debaixo de um verdejante e frondoso salgueiro. Na sombra, o sol continua a queimar. Não tanto, mas continua, pelo que vou refrescar-me no rio. Nado, mergulho, salto e brinco com os peixes. Volto a saltar, nado no ar, brinco e flutuo na água e na luz, até o sol me tocar e me encantar.

Vou espraiar-me ao sol para secar mais depressa. Tenho a visão de uma flecha azul na superfície da água. Observo, com mais atenção e, apercebo-me que o  voo, rasante e direto, é de um guarda-rios, também conhecido por martinho-pescador, passa-rios, pica-peixe, entre outras designações. Reconheço-o pelo azul do dorso e das asas e pelo peito e ventre cor-de-laranja. A colorida, graciosa e ativa ave voa para o topo de um freixo e, ao mesmo tempo que saltita de ramo em ramo, depenica algo que trouxe das águas.

Lá, bem no alto, no céu azul, as nuvens espreguiçam-se e bocejam de mansinho. Sinto-me enternecer. Estou tranquila, leve e serena. Lembro-me, então do poema Alberto Caeiro:

O Meu Olhar Azul como o Céu

“O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta…
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo…
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol…
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)”

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXIII”

Estou com sono, vou dormir um pouco. Ouço ainda o concerto que o passarinho e os seus amiguinhos, acabados de chegar, me dão. Não consigo dormir. Não consigo parar de pensar no rio como um caminho infinito com os seus tons azulados e esverdeados, que me poderá levar numa viagem mágica, a cenários deslumbrantes e paradisíacos. Lugares com histórias e lendas de encantar envoltos em misticismo, lugares que nos renovam o espírito e nos inspiram a viver a vida com mais intensidade.

Caminho e aprecio a paisagem. A planície está magnífica. Vejo verde, verde e mais verde. Este verde que eu vejo está pincelado com as cores do arco-íris e pintalgado de flores encantadas. O seu aroma é tão divino que igual só por magia. Há árvores e mais árvores. Há uma que é diferente. Parece morta. Passo a mão pelo seu tronco. É grosso, rugoso, escuro e seco.

1455135_381490158653253_270778895_nSorrateiramente começam a surgir animais que também o almejam. Aparecem cágados, sapos, rãs, lontras, coelhos, lebres, borboletas, abelhas… Tudo começa a ficar com tons dourado, amarelo, laranja e vermelho. Cá está ele, o lusco-fusco. É lindo! A árvore parece renascer e dizer obrigado a todos nós por estarmos ali com ela.

Sabes, árvore? Eu invejo-te! Sim, tenho inveja de ti! Muitos homens anseiam ouro, prata, dinheiro, mas não sabem que tu tens algo mais valioso que isso. Exato, tu tens o rio e a paisagem, os aromas e as melodias, o alvorecer e o lusco-fusco e coração para sentir isto tudo

Fernand@maro