História & Estórias

Archive for the ‘família’ Category

ADORO SER AVÓ!

Desde que sou avó
Vivo momentos de magia,
Recordo os aromas da infância,
Vivencio momentos de alegria!
 
Pela sorte sou bafejada
Ao ser avó de duas princesas
Usufruo duma vida encantada
Amo-as com imensas certezas!
 
Sou criança como a minha neta!
A esperança foi renascida,
Com ela tem sido uma festa
E a idade foi esquecida!              
 
Amor d’ avó é açucarado de ternura
É dar felicidade com doçura
É um elo de amor incondicional,
Numa ditosa missão sem igual!

Fernand@maro
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MEMÓRIAS DE INFÂNCIA – CHEIROS E SABORES DE NATAL

Porque há memórias, receitas, cheiros e sabores que aquecem a alma, que nos alimentam o espírito, hoje, 21 de dezembro, recordo com saudade os aromas e os sabores aconchegantes dos natais da minha meninice. Estes eram únicos, bem como toda a euforia e entusiasmo que irradiava desta quadra festiva!

Tudo começava com a recolha de pequeno e finos toros de madeira que iriam, depois de acesos, fazer ferver o azeite, numa sertã/frigideira de três pernas, que fritariam as tão deliciosas de bolas de natal, também conhecidas por filhós.

Eu segurava no alguidar, e com a força que parecia não ter, a minha mãe com a massa até ao cotovelo amassava e voltava a amassar, batia e socava a massa uma e outra vez. Quando esta se soltava bem das mãos estava pronta para levedar. Depois de polvilhada com farinha, era coberta com um pano branco e colocada junto da lareira para que crescesse bem e rapidamente.

Sentada num pequeno banco de madeira, com um pano branco nos joelhos, a minha mãe fazia bolinhas de massa que, depois de molhadas em azeite numa pequena tigela junto à lareira, tendia sobre o joelho fazendo a bola/a filhó e colocava-a no azeite. Eu gostava delas finas, quase transparentes! Eu, ao seu lado, com um garfo grande, virava, com cuidado e carinho, cada filhó. Depois de bem douradas e bem escorridas eram polvilhadas com açúcar e canela, guardas num tabuleiro ou num cesto e cobertas com uma toalha branca.

Adorava-as e adoro-as quentinhas, acabadas de fazer! Estas eram comidas não só na noite de consoada, no dia de Natal, mas também ao longo da semana até ao Ano Novo.

Para que a tradição natalícia fosse cumprida na noite de consoada comia-se o bacalhau cozido, o arroz de polvo e as migas /açorda de bacalhau e couve penca. Na sobremesa não podia faltar as filhós, o arroz doce e as rabanadas e salpicadas com canela.

Ainda, na noite de 24 de dezembro, enquanto alguns jovens andavam de porta em porta a cantar “As Boas Festas”, outros cavaqueavam e aqueciam-se junto do gigantesco cepo / madeiro que ardia no largo da igreja. Este era ateado no entardecer da véspera de Natal e ardia até ao Dia dos Reis. Nos dias anteriores os rapazes da aldeia iam roubar grandes troncos e raízes de árvores que depositavam no adro da igreja. Hoje pessoas de todas as idades continuam a juntar-se e a conviver em redor do cepo / da fogueira, aproveitando o lume do braseiro para assar e saborear frangos e febras de porco.

Ao deitar e antes da meia-noite, colocava o meu sapato na chaminé da lareira, na esperança que o Menino Jesus lá deixasse uma prendinha. Ele nunca deu com a minha casa, a prenda nunca apareceu mas, no dia de Natal, eu podia exibir-me e com vaidade com uma roupa nova.

Não posso esquecer e deixar de referir o presépio e a Árvore de Natal, que eram construídos juntos para que o pinheiro protegesse a gruta do Menino Jesus. Era também uma grande azáfama! Após cortarmos o pinheiro, arranjarmos o musgo, fazíamos a Árvore de Natal, enfeitando-a com bolinhas e fitas brilhantes. Por baixo montávamos o presépio com montes e vales, rebanhos e pastores e uma gruta que albergava o Menino Jesus, Nossa Senhora, S. José e o burrinho e vaquinha. Claro que não podia faltar a Estrela de Belém e os três Reis Magos!

Sou fã e colecionadora de presépios, tenho muitos (cerca de oitenta) e já fiz muitos, mas nunca consegui fazer um tão bonito como aqueles que recordo da minha infância!

Fernand@maro

TRIBUTO AO EMIGRANTE

TRIBUTO AO EMIGRANTE

Na mala levo a esperança

No novo mundo encontrar

Trabalho, amor e alegria

Para um dia poder voltarp-11

 

Encontro o desalento

No meio da multidão

A dor sufoca o peito

É tão grande a solidão

 

Oh, saudade maldita

Que dói, mastiga e destrói!

Ela aperta o coração

Devora sem compaixão

 

Olho a lua lá no alto

Que sorri com ironia:

És pessoa decidida

Enérgica e destemida

 

Levanta-te e vai à luta

Não te deixes amofinar

Recomeça sê resoluta

E com força labutar

 

Leva o dia em alegria

Agosto está a chegar

Regressarás em euforia

E saudades irás matar!

Fernand@maro

saudade

SOB O MEU OLHAR

É o fim de tarde de um dia estival. Passo a passo vou percorrendo a encosta íngreme. Ao olhar para o cume da elevação posso admirar as robustas muralhas do majestoso castelo. Há um contraste inteligente e bem pensado, entre o imponente e o austero, o forte e o aprazível, mas também entre o severo e o risonho, convidando o visitante a percorrê-lo e a andar descontraído junto de tanta grandeza. Observa-se tudo isto num simples e completo olhar de relance e gosta-se imediatamente dele, é bonito, é agradável e oferece mistérios.

Chego, entro pela porta principal e acho-me pequenina perante tamanha grandiosidade. Sinto sobre mim o olhar amável das ilustres, mas também humildes torres que parecem dizer “Sê bem-vinda! Entra, descansa e relaxa admirando esta magnífica paisagem!”. Olho em volta e observo as ruínas da igreja de Santa Maria do Castelo, os muitos vestígios das habitações que por ali houve, as amêndoas sorridentes que pendem das amendoeiras, bem como o gigante colar de muralhas e ameias que circunda este espaço.

Julgo regressar à infância e sinto um enorme impulso de galgar as extensas muralhas. Dirijo-me para elas, olho para baixo. Vejo Numão, postada em posição de veneração e respeito, mas também orgulhosa da sua história, riqueza e beleza. Vejo o serpentear das ruas ladeadas de algum casario granítico alegrado pela cor dos telhados e pelo betão colorido da maioria das habitações. Numão é uma terra cheia de cor a brilhar ao sol. Vejo, ainda, a capela da S. Eufémia, a torre sineira da igreja e a torre da casa do Dr. João Gouveia, homem ilustre e benemérito da aldeia.

Mais ao longe avisto a albufeira da ribeira Teja e a paisagem verdejante da Sequeira com as suas casas brancas, um postal ilustrado de uma tela encantada. Caminho ao longo das muralhas. Desço-as e volto a subi-las. Extasio-me com o que vejo, um cenário hollywoodesco de cortar a respiração. O meu olhar abarca um ambiente aprazível e relaxante, com montes tocarem o céu e vales profundos banhados pelo rio de águas d’ouro, o sublime Douro. A natureza é bela e envolvente, alinhando composições harmoniosas, equivalentes a verdadeiras obras de arte.

Dizem que podem ser avistados o Castelo de Ansiães, Castelo Melhor e Castelo Rodrigo, mas eu nunca os vislumbrei. E tu?

Fernand@maro

MÃE

Mãe

Ah, que saudade imensa

Do teu cheiro a jasmim

Dos teus braços de abrigo

Do teu colo de jardim!

Que saudade da tua voz21-trandafiri-rosii-2

Dos conselhos que não escutei

Dos castigos que protestei!

Mãe,

De ti colhi a vida,

O sorriso e a alegria

A firmeza e a teimosia

Ah,

Como gostava da tua presença

Mas só te tenho na lembrança

No aconchego do coração

E aí tu serás sempre minha mãe!

Feliz dia da MÃE!

Fernand@maro

AH, QUE SAUDADES!

Ah, que saudade

Ah, esta contraproducente tristeza que chega de mansinho, sem avisar e sem hora marcada! Entra sem ser convidada, instala-se e teima em ficar.

Num piscar de olhos, sou tocada por uma melancolia repleta de lembranças, de alegrias, mas também de lágrimas, de silêncios, mas também de sons, de sabores e de aromas. Sinto o coração apertado e sinto-me envolvida pela poeira do tempo. Sou abraçada pelos raios do passado, o presente desvanece-se e sou projetada no tempo e no espaço.

Por vezes tenho saudade das pessoas queridas que já partiram. Outras vezes tenho vontade de recuar no tempo para determinado momento, ser transportada para um lugar ou para uma época.

Ah, que saudades do colo da minha mãe! Ah, que saudades dos ralhetes do meu pai!

Tenho saudades de uma alegre cavaqueira à volta da fogueira, do calor fraterno nas noites de inverno!

Sinto falta do amigo que partiu, saudade das suas risadas, da delicadeza das suas palavras, das suas brincadeiras, saudade da amizade que ficará na lembrança.

Ah, que saudades…

Conto de Natal – Um Natal Inesperado

Há cerca de doze anos pediram-me para escrever um conto de Natal, para o jornal da escola, onde trabalhava. Como alto duriense que sou, mergulhei nas minhas memórias e desenhei e pintei através das palavras os natais da minha infância.
Conto de Natal
Um Natal Inesperado

Era uma tarde fria e escura de Dezembro, véspera de Natal. O céu estava coalhado de nuvens-coelho, nuvens-javali e nuvens-pássaro, como de animais as matas transmontanas. Os montes, as árvores, os caminhos e os telhados das casas estavam cobertos de neve.
Chico, um rapaz de dez anos, deslizava cuidadosamente sobre o caminho macio, com receio de pisar e amachucar aquele imenso algodão branco que cobria toda a paisagem. O frio intenso cortava-lhe a pele como se de uma navalha se tratasse. Vestia uma grossa e usada camisola, um casacão largo e gasto e umas calças de cotim já muito coçadas. Cobria a cabeça com um carapuço de lã, que mais parecia um crivo, assim como esburacadas estavam as luvas.
– Uf, Russo! Estou gelado! – lamentou-se o Chico a tiritar de frio.
Russo, era o seu inseparável companheiro de viagens e aventuras. Russo, era um pequeno e velho burro cinzento, de orelhitas arrebitadas, focinho preto e olhos brilhantes e meigos. O burrito era o único amigo do rapaz e era com ele que o Chico desabafava as desventuras da sua curta e longa vida, assim como era com o Russo que festejava as alegrias e venturas do seu dia a dia.
Os dois amigos caminhavam em direcção a uma pequena aldeia do interior. Entraram naquela que parecia ser a rua principal e rapidamente se viram no adro da igreja. As ruas estavam desertas. No centro do adro havia um enorme cepo de sobreiro. Chico ao vê-lo comentou:
-Que bom p’ro lume! Que calorzinho dava se estivesse a arder!
Enquanto assim falava o menino ouviu vozes. Virou-se, e viu um grupo de rapazes a aproximarem-se, trazendo molhos de vides e de giesta. Chegaram junto do cepo, pousaram a lenha e acenderam o fogo. Imediatamente os feixes começaram a arder e a pouco e pouco o tronco de sobreiro começou a queimar-se, dando pequenos estalidos, como gargalhadas de alegria, parecendo saber de antemão o conforto e calor que iria transmitir.
Chico prendeu o Russo a uma árvore e aproximou-se da fogueira, para se aquecer e esquecer o frio cortante que lhe trespassava a pele. Começou, então, a sentir-se melhor.
Um menino mais ou menos da sua idade dirigiu-se e perguntou-lhe:
– Tu d’onde és ? Como te chamas?
– Chamo-me Chico. Estou de passagem e ando com o meu burro Russo.
– Andas sozinho com o burro? Os teus pais deixam-te? Tens mais sorte do que eu, porque os meus pais querem saber tudo o que faço! – comentou o rapaz.
– Eu não tenho pais. A minha mãe morreu o ano passado de tuberculose e já não tinha pai. – lamentou-se o Chico.
– Tenho pena de ti! Afinal, eu sempre tenho mais sorte do que tu. Então, não andas na escola?
– Não. Andei na escola até à 3-ª classe. Depois a minha mãe morreu e não voltei.
– Quem te dá de comer e quem te veste?
– Vivo com aquilo que as pessoas me dão e trabalho à jeira, quando arranjo trabalho. Porque têm este cepo a arder, aqui? – perguntou o Chico.
– É um costume da nossa terra, de há muito tempo. Um grupo de rapazes solteiros procura um grande tronco de uma árvore, trá-lo para o adro da igreja. O cepo tem que estar a arder desde a véspera de Natal até ao dia de Reis. Durante o Natal é aqui que nos encontramos. Depois da Missa do Galo toda a gente se vem aqui aquecer. Nos dias de hoje o cepo é trazido num camião ou num tractor, mas antes era carregado em carros de bois. Ah, já é tarde! Tenho que ir para casa. Chamo-me Tónio. Adeus! – disse o Tónio, em tom de despedida.
Chico olhou à volta e verificou que o adro estava outra vez deserto. Sentou-se no chão e ali ficou, até que anoiteceu completamente. As nuvens tinham desaparecido e o céu estava limpo, salpicado de estrelas, como lamparinas e pirilampos de um imenso presépio. Levantou-se, foi ter com o Russo, fez-lhe meiguices no focinho e nas orelhas e segredou-lhe:
– Tenho tanta fome! Que bem me sabia, agora, uma rabanada ou uma filhós!
O burrinho olhou-o com ternura, transmitindo-lhe através daquele olhar um certo conforto e apoio. Ouviram passos. Era o Tónio que lhe perguntou:
– Com quem vais passar o Natal e consoar?
– Natal?! Consoada?!… – E disse ao Tónio que iria passar o Natal com o Russo e que não tinha nada para comer, quanto mais para consoar!
O Tónio disse-lhe que tinha falado com os pais e estes convidavam-no para sua casa. Levaram o burro para uma quentinha corte, onde estavam um cavalo e uma vaquinha. Deitaram-lhe na manjedoura uma ração reforçada, de palha e cevada, para que ele pudesse, também, comemorar o nascimento de Jesus. E os dois amigos foram para casa.
Chico sentou-se à mesa com o Tónio e os pais deste, e comeu bacalhau, polvo, rabanadas, filhós e uma infinidade de coisas boas. Ainda estavam à mesa quando ouviram cantar:
“ Ainda agora aqui cheguei
Pus o pé nesta entrada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada.”
… … …
– Quem está a cantar? – perguntou o Chico.
– Devem ser o Ti Jaquim e a Ti Maria, mais algumas pessoas a cantarem as “natais”, um costume da nossa terra – respondeu a mãe do Tónio.
– As “natais”!? Nunca ouvi falar!
– Como se cantam na véspera de Ano Novo as “janeiras”, aqui, na véspera de Natal também se cantam as “natais” – explicou a senhora da casa – Vou convidá-los a entrarem.
O grupo de cantadores, formados por jovens e pessoas idosas, entraram, conversaram, petiscaram e convidaram o Chico e o Tónio a juntarem-se-lhes e irem com eles cantar as “natais” a outras casas da aldeia. Estes aceitaram e divertiram-se muito. Quando regressaram a casa tinham algumas prendas à espera, pois o Menino Jesus tinha passado por lá e não se tinha esquecido do Chico. É importante dizer que, naquela terra não era o Pai Natal que trazia as prendas, mas o Menino Jesus.
O Chico recordou sempre aquele surpreendente e inesperado Natal. Ficou a viver em casa do Tónio, passou a ir à escola e ajudava os seus novos amigos nas lidas do campo.

                                                                                                         Fernanda Amaro

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