História & Estórias

Archive for 09/12/2018

MINHA MÃE TEM FLORES NOS OLHOS

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NÃO ME ESQUECI DE TI

NÃO ME ESQUECI DE TI

Mãe, hoje bateu a saudade!

Lembrei-me do seu sulcado rosto

Do seu carinhoso olhar

Tão capazes de amar!

Mãe, como anseio

Sentir suas calejadas mãos

Junto ao meu coração,

Careço das suas ternas carícias

 E dos seus quentes abraços

Num xi apertado de emoção!

Mãe, hoje bateu a saudade!

                                                                           Fernand@maro

Poema à Mãe

No mais fundo de ti, 

eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal…
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade, in “Os AmantesSem Dinheiro” 

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