História & Estórias

Há cerca de doze anos pediram-me para escrever um conto de Natal, para o jornal da escola, onde trabalhava. Como alto duriense que sou, mergulhei nas minhas memórias e desenhei e pintei através das palavras os natais da minha infância.
Conto de Natal
Um Natal Inesperado

Era uma tarde fria e escura de Dezembro, véspera de Natal. O céu estava coalhado de nuvens-coelho, nuvens-javali e nuvens-pássaro, como de animais as matas transmontanas. Os montes, as árvores, os caminhos e os telhados das casas estavam cobertos de neve.
Chico, um rapaz de dez anos, deslizava cuidadosamente sobre o caminho macio, com receio de pisar e amachucar aquele imenso algodão branco que cobria toda a paisagem. O frio intenso cortava-lhe a pele como se de uma navalha se tratasse. Vestia uma grossa e usada camisola, um casacão largo e gasto e umas calças de cotim já muito coçadas. Cobria a cabeça com um carapuço de lã, que mais parecia um crivo, assim como esburacadas estavam as luvas.
– Uf, Russo! Estou gelado! – lamentou-se o Chico a tiritar de frio.
Russo, era o seu inseparável companheiro de viagens e aventuras. Russo, era um pequeno e velho burro cinzento, de orelhitas arrebitadas, focinho preto e olhos brilhantes e meigos. O burrito era o único amigo do rapaz e era com ele que o Chico desabafava as desventuras da sua curta e longa vida, assim como era com o Russo que festejava as alegrias e venturas do seu dia a dia.
Os dois amigos caminhavam em direcção a uma pequena aldeia do interior. Entraram naquela que parecia ser a rua principal e rapidamente se viram no adro da igreja. As ruas estavam desertas. No centro do adro havia um enorme cepo de sobreiro. Chico ao vê-lo comentou:
-Que bom p’ro lume! Que calorzinho dava se estivesse a arder!
Enquanto assim falava o menino ouviu vozes. Virou-se, e viu um grupo de rapazes a aproximarem-se, trazendo molhos de vides e de giesta. Chegaram junto do cepo, pousaram a lenha e acenderam o fogo. Imediatamente os feixes começaram a arder e a pouco e pouco o tronco de sobreiro começou a queimar-se, dando pequenos estalidos, como gargalhadas de alegria, parecendo saber de antemão o conforto e calor que iria transmitir.
Chico prendeu o Russo a uma árvore e aproximou-se da fogueira, para se aquecer e esquecer o frio cortante que lhe trespassava a pele. Começou, então, a sentir-se melhor.
Um menino mais ou menos da sua idade dirigiu-se e perguntou-lhe:
– Tu d’onde és ? Como te chamas?
– Chamo-me Chico. Estou de passagem e ando com o meu burro Russo.
– Andas sozinho com o burro? Os teus pais deixam-te? Tens mais sorte do que eu, porque os meus pais querem saber tudo o que faço! – comentou o rapaz.
– Eu não tenho pais. A minha mãe morreu o ano passado de tuberculose e já não tinha pai. – lamentou-se o Chico.
– Tenho pena de ti! Afinal, eu sempre tenho mais sorte do que tu. Então, não andas na escola?
– Não. Andei na escola até à 3-ª classe. Depois a minha mãe morreu e não voltei.
– Quem te dá de comer e quem te veste?
– Vivo com aquilo que as pessoas me dão e trabalho à jeira, quando arranjo trabalho. Porque têm este cepo a arder, aqui? – perguntou o Chico.
– É um costume da nossa terra, de há muito tempo. Um grupo de rapazes solteiros procura um grande tronco de uma árvore, trá-lo para o adro da igreja. O cepo tem que estar a arder desde a véspera de Natal até ao dia de Reis. Durante o Natal é aqui que nos encontramos. Depois da Missa do Galo toda a gente se vem aqui aquecer. Nos dias de hoje o cepo é trazido num camião ou num tractor, mas antes era carregado em carros de bois. Ah, já é tarde! Tenho que ir para casa. Chamo-me Tónio. Adeus! – disse o Tónio, em tom de despedida.
Chico olhou à volta e verificou que o adro estava outra vez deserto. Sentou-se no chão e ali ficou, até que anoiteceu completamente. As nuvens tinham desaparecido e o céu estava limpo, salpicado de estrelas, como lamparinas e pirilampos de um imenso presépio. Levantou-se, foi ter com o Russo, fez-lhe meiguices no focinho e nas orelhas e segredou-lhe:
– Tenho tanta fome! Que bem me sabia, agora, uma rabanada ou uma filhós!
O burrinho olhou-o com ternura, transmitindo-lhe através daquele olhar um certo conforto e apoio. Ouviram passos. Era o Tónio que lhe perguntou:
– Com quem vais passar o Natal e consoar?
– Natal?! Consoada?!… – E disse ao Tónio que iria passar o Natal com o Russo e que não tinha nada para comer, quanto mais para consoar!
O Tónio disse-lhe que tinha falado com os pais e estes convidavam-no para sua casa. Levaram o burro para uma quentinha corte, onde estavam um cavalo e uma vaquinha. Deitaram-lhe na manjedoura uma ração reforçada, de palha e cevada, para que ele pudesse, também, comemorar o nascimento de Jesus. E os dois amigos foram para casa.
Chico sentou-se à mesa com o Tónio e os pais deste, e comeu bacalhau, polvo, rabanadas, filhós e uma infinidade de coisas boas. Ainda estavam à mesa quando ouviram cantar:
“ Ainda agora aqui cheguei
Pus o pé nesta entrada
Logo o meu coração disse
Que aqui mora gente honrada.”
… … …
– Quem está a cantar? – perguntou o Chico.
– Devem ser o Ti Jaquim e a Ti Maria, mais algumas pessoas a cantarem as “natais”, um costume da nossa terra – respondeu a mãe do Tónio.
– As “natais”!? Nunca ouvi falar!
– Como se cantam na véspera de Ano Novo as “janeiras”, aqui, na véspera de Natal também se cantam as “natais” – explicou a senhora da casa – Vou convidá-los a entrarem.
O grupo de cantadores, formados por jovens e pessoas idosas, entraram, conversaram, petiscaram e convidaram o Chico e o Tónio a juntarem-se-lhes e irem com eles cantar as “natais” a outras casas da aldeia. Estes aceitaram e divertiram-se muito. Quando regressaram a casa tinham algumas prendas à espera, pois o Menino Jesus tinha passado por lá e não se tinha esquecido do Chico. É importante dizer que, naquela terra não era o Pai Natal que trazia as prendas, mas o Menino Jesus.
O Chico recordou sempre aquele surpreendente e inesperado Natal. Ficou a viver em casa do Tónio, passou a ir à escola e ajudava os seus novos amigos nas lidas do campo.

Fernanda Amaro

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